Projeto Memória Gráfica ganha novo impulso com parceria com o Centro Cultural da UFMG

A abertura de um museu no conjunto arquitetônico da Praça da Estação também ajuda apaixonados por tipografia.

Há uma década, um grupo de apaixonados por artes gráficas, sonhando colocar em funcionamento uma velha tipografia encostada na extinta Febem, criou o projeto Memória Gráfica. Conseguidos os equipamentos, foram à luta em busca de espaço para trabalhar com impressões de arte. E acabaram vizinhos do Centro de Internação do Adolescente Santa Terezinha, no Horto, aproveitando para dar uma ocupação a jovens em situação de risco social ou em conflito com a lei. Desde então, a “nova tipografia”, que é aberta à visitação, vem produzindo livros, agendas, álbuns, cartões e gravuras cujo engenho e capricho de realização são dignos de nota. Surge agora a parceria com o Centro Cultural da UFMG para a viabilização do Museu Vivo Memória Gráfica.

 Trata-se de pequeno parque gráfico surgido da soma de equipamentos antigos de várias instituições. O objetivo é promover práticas e tradições que constituem o universo das artes do livro. A programação, diferente a cada semestre, inclui encontros, seminários, edições e mostras. Sexta-feira teve início o curso de caligrafia medieval e renascentista, desenvolvendo os estilos carolíngio minúsculo e humanista maiúsculo. Já estão ocorrendo também cursos de encadernação artesanal livre, marmorização, tipografia e gravura.

 No Museu Vivo Memória Gráfica, o visitante vai poder ver uma gráfica funcionando e todos os processos e fases de elaboração de uma impressão. “É trabalho de preservação da memória”, afirma Maria Dulce Barbosa, uma das fundadoras do projeto, explicando que o momento é de expansão de atividades e estímulo à pesquisa. “O Museu Vivo une patrimônio material, a recuperação de antigos equipamentos que voltam a ganhar vida, e imaterial, com o resguardo e difusão de ofícios e tradições gestuais da construção do livro”, acrescenta a coordenadora de cursos Ana Utsch, professora de história do livro e restauração de acervos bibliográficos.

Dulce Barbosa e Ana Utsch destacam o alcance social do projeto

Dulce Barbosa e Ana Utsch destacam o alcance social do projeto

 Grande interesse “A gráfica antiga está vivíssima, tornou-se arte”, afirma Maria Dulce Barbosa, contando que os cursos, realizados desde o ano passado, andam atraindo muita gente. Houve quem se inscrevesse nas atividades por curiosidade, como um hobby, para criar pequenos objetos, e terminou encantado, por exemplo, com velhas técnicas de decoração de capas, como a marmorização. “A boa repercussão deu segurança para avançarmos”, acrescenta Dulce. “O livro no cotidiano é maravilhoso”, completa Ana Utsch. “Mas deslocá-lo dessa situação de banalidade permite ver que ele tem uma história que nos ajuda a compreender as transformações quais o livro vem passando.”

“Contra as previsões pessimistas que proclamam o fim do livro, com a chegada dos novos suportes eletrônicos, a história nos permite compreender que os objetos que nos dão a ler a palavra escrita já passaram por inúmeras transformações materiais”, explica Ana Utsch. Um grande exemplo é a passagem do volúmem (rolos de textos), suporte da palavra na antiguidade greco-romana, para o códex (conjuntos de folhas reunidas sob uma capa), do mundo cristão. Transformação de ordem técnica a estética formalizada por volta dos séculos 3 e 4, que funda aspectos que definem o livro como o conhecemos hoje: página, encadernação, unidade livro.

O projeto, continua Dulce, é produzir edições limitadas, assinadas, especiais, que brinquem com tipos e formatações. Por isso mesmo desejam atrair para o local artistas, poetas, designers e estudiosos. “Não vamos ficar restritos a cursos, oficinas e exposições. Gostaríamos de editar material didático, textos sobre a história do livro, o que é, também, uma maneira de difundir o projeto”, ressalta Ana Utsch. Para ela e Dulce, o importante é aproveitar bem uma circunstância especial que tem permitido aproximar resgate e restauração de velhos equipamentos com pesquisas inovadoras na área das artes gráficas.

A intensificação das atividades do Museu Vivo Memória Gráfica, segundo Dulce Barbosa, não significa o fim das atividades com os jovens em situação de risco no Horto. Até pelos bons resultados apresentados. “A gráfica encantou os jovens, induz à concentração, mostra a eles que podem fazer seus livros sem depender de ninguém”, enfatiza. “É muito bom ver jovens que superaram problemas agora constituindo família. Traz o sentimento que o projeto deu certo”, comemora. “A prova são publicações, folhetos que todo mundo gosta e acha bonito”, conclui. Artes gráficas, garante Dulce, têm potencial social e estético forte.

História 

 

Tipografia – Em meados do século 15, surgiu na Europa uma nova modalidade técnica de reprodução da palavra escrita que revolucionou o sistema de produção, difusão e recepção do livro. A tipografia, tal como foi concebida por Gutenberg, funcionava como um sistema de caracteres móveis e reutilizáveis, constituídos por uma liga de chumbo e antimônio, que permitem a impressão de um texto em larga escala. Apesar de ter passado por modificações técnicas consideráveis que permitiram o aumento da produtividade – sobretudo no século 19, com o aparecimento da rotativa –, o sistema permaneceu o mesmo até o advento do offset, no século 20.

 Encadernação – As inúmeras técnicas de encadernação são na realidade as responsáveis pela concepção códex (conjunto de folhas reunidas sob uma capa) e, portanto, do livro moderno. Mesmo tendo sido responsável pela materialidade do objeto livro durante todo o período de produção manuscrita (séculos 3 a 14), foi apenas a partir do século 16, com a multiplicação do número de exemplares das tiragens, que a encadernação teve sua forma tradicional formalizada e fixada a partir de um modelo técnico e estético ainda hoje praticado na Europa e designado “encadernação tradicional”.

 Manuscritos – Nos primeiros 50 anos que regulam a passagem do modo de produção manuscrito à produção tipográfica (o período dos incunábulos), os elementos visuais que compõem a página manuscrita são simplesmente transpostos para a página impressa. Os primeiros tipógrafos tentavam obstinadamente se aproximar da estética fixada pelo livro manuscrito, inclusive na criação de tipos que lembram manuscritos. A tipografia se afasta da herança manuscrita e formaliza uma linguagem gráfica própria a partir do trabalho dos grandes editores humanistas, italianos e franceses, do século 16.

Disponível em: http://www.divirta-se.uai.com.br/html/sessao_7/2011/06/08/ficha_agitos/id_sessao=7&id_noticia=39693/ficha_agitos.shtml

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