“A RESTAURAÇÃO é apenas o último passo”

Entrevista com Antônio Agamellotti

Sgamellotti: não se faz conservação só com recursos científicos

Sgamellotti: não se faz conservação só com recursos científicos (foto Foca Lisboa)

Há seis anos a comunidade europeia montou infraestrutura física e de especialistas para conservação de seu patrimônio cultural considerada única no mundo. Reunindo 21 instituições, o consórcio, conhecido como Eu-ARTECH, conta com o original Molab, ou Mobile Laboratory, sediado na Universidade de Perugia, na Itália, e, há algum tempo, parceiro da UFMG. Recentemente, o grupo italiano manifestou interesse em formalizar acordos no Brasil, especialmente com a Universidade, ancorado em trabalhos com a Escola de Belas-Artes, que abriga núcleo de reconhecida competência na área. “Queremos dar continuidade aos projetos e promover intercâmbio de professores e alunos”, disse o químico e professor Antonio Sgamellotti, um dos mais respeitados cientistas em conservação da Europa. No início do mês, abriu sua agenda de trabalho no Brasil para receber a reportagem do BOLETIM para a qual concedeu a entrevista que se segue.

Por que investir em um laboratório móvel?

O Molab é a única infraestrutura europeia de conservação do patrimônio cultural que funciona de forma inversa à tradicional. Ou seja, com instrumentos originais portáteis para análise não destrutiva da obra de arte: ela é que vai até o usuário. Isso ocorre porque algumas obras não podem ser movidas no trabalho de conservação, como os grandes monumentos ou afrescos. Há artefatos que são tirados do lugar, mas não é bom movê-los, por dois motivos: Primeiro, por razão ética. Qualquer movimentação causa-lhes um estresse considerável e devemos proporcionar menos traumas possíveis à sua estrutura. O segundo tem motivação econômica: o alto custo dos seguros.

Quando menciona que o Molab possui instrumentos únicos isso significa que há um desenvolvimento específico da indústria para ele? Descreva essa dinâmica de inovação tecnológica definida pela necessidade de conservação.

Há instrumentos produzidos pela indústria para determinados objetivos e depois nós os adaptamos para o uso nos bens culturais. Outros equipamentos são desenvolvidos academicamente e depois sua tecnologia é transferida para a indústria. Em alguns casos, são protótipos únicos, mas, em outros, acabam comercializados com a indústria.

Os estudos do Molab parecem se apoiar numa abordagem mais técnico-científica. No Brasil, no entanto, predomina uma análise mais histórica dos objetos artísticos…

Isso não é apenas no Brasil. Diria que, inicialmente, a história da arte é a história das ideias. Mas, aos poucos, está sobressaindo a visão de que o conhecimento do percurso do artista também traz contribuições, e elas são, naturalmente, interdisciplinares e requerem os cientistas, os conservadores, os restauradores e os historiadores da arte. Creio que o Brasil deva ter o papel de guiar os países da América Latina nesse processo de integração dos aspectos científicos e os histórico-artísticos e de conservação. E, mais particularmente, a UFMG, pela competência que já desenvolveu, tem todas as possibilidades de se tornar o centro de coordenação desse processo. Porém, a interação da ciência com aspectos histórico-artísticos tem como contexto o estágio de desenvolvimento de cada país. O Brasil passa por um desenvolvimento inacreditável e isso é ótimo. Mas quando ocorre de modo súbito e veloz apresenta algum risco: o de perder, durante o processo de modernização, o contato com a realidade histórica, com a identidade do patrimônio – e isso é como perder ou negligenciar a identidade de um país. Creio que o Brasil, por sua dimensão e pela capacidade que possui, não pode permitir que os erros cometidos na Europa aqui se repitam.

Ainda sobre o papel da ciência para a arte e considerando a experiência do Molab: é ela que lidera hoje o aporte de novos conhecimentos a essa área?

A ciência possui importância e autonomia, mas está inserida em certo contexto sociocultural e por isso precisamos de sociólogos, de filósofos e de pensadores nesse processo. Se quisermos conservar o patrimônio não poderemos fazê-lo apenas com recursos científicos. Isso simplesmente não faria sentido. Diria que, para fazer conservação do patrimônio, é necessário educar – não apenas a população, mas, antes, promover treinamento para formar especialistas a par dos problemas e em condições de intervir. Podemos contribuir neste aspecto, mas também queremos receber outros conhecimentos, que podem ser problemas que ocorrem em um clima e em uma realidade diferentes.

As condições ambientais têm imposto algum tipo de desafio para a preservação de patrimônio?

Naturalmente preservar o patrimônio significa preservá-lo em seu meio natural, levando em conta os problemas ambientais. Esta contextualização consiste em restaurá-lo e resguardá-lo por meio do conhecimento, de uma conservação preventiva e de uma manutenção programada. Isto é, tentar prevenir o que pode produzir danos, pois a restauração é apenas o último passo. Levo em consideração que ambiente não é apenas o atmosférico, mas também o social.

O Projeto Portinari criou ponte de trabalho entre a Universidade de Perugia e a UFMG. Essa parceria gerou alguma nova descoberta?

Sobre a obra de Portinari, discutimos problemas diversos, como os relacionados à utilização do pigmento anatásio [óxido de titânio]. Parece que o fenômeno de degradação provocado pelo seu uso está ocorrendo em algumas obras de Portinari.

Ana Maria Vieira

http://www.ufmg.br/boletim/bol1748/6.shtml

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