Moda : A formação e a direção criativa

TARCISIO D´ALMEIDA

Publicado no Jornal OTEMPO em 02/10/2011

Todas as carreiras têm suas definições, especificidades e destinações. E a moda ainda contempla uma outra noção de pertencimento: a de integrar o que os pensadores da atualidade definem como “indústria criativa”. Ela forma profissionais produtores de bens artísticos e estéticos, mas têm também forte apelo de mercado.

 O primeiro autor a observar essa relação da moda com a produção de mercadorias, além de ideais estéticos, foi o filósofo alemão Walter Benjamin. “A moda é filha dileta do capitalismo”, disse no final do século XIX, em Paris, ao produzir as reflexões que integram o livro “Passagens”. Foi ele quem enxergou o que muitos atualmente tentam explicar como duelo entre criação e mercado. Duelo este que, por sinal, direcionou a moda para uma viela em que as regras ditatoriais do mercado esmagam a liberdade autônoma e criativa. Sim, a moda não foge desse embate, pois é uma área que mescla as duas vertentes. Mas sempre penso (e defendo) que é possível ser conceitual. O verdadeiro criador de moda precisa ter assinatura, precisa ser autoral.

 Dito isso, podemos pensar especificamente sobre o aspecto criativo e sobre o profissional que se forma em moda. A própria definição do adjetivo para o profissional que atua na área tem se alterado na evolução histórica em decorrência direta de novas percepções sobre a indústria criativa da moda. Na época de criação da alta costura, nos anos 1860, era atribuído ao profissional o adjetivo de “costureiro”. Entramos no século XX e, a partir dos 1960, começa-se a nomear os criadores visionários do prêt-à-porter como “estilistas”. Por uma forte influência da língua inglesa e pelas maneiras de se interpretar o desenvolvimento do design no final do século XX, chama-se os criadores como “designers de moda”.

 E, recentemente, em plenos anos 2000, testemunhamos uma nova atribuição para quem cria e produz moda: a de “diretor criativo” e “diretor de estilo”. A papisa francesa do ensino de moda, Marie Rucki, sentenciou recentemente que “acabou a era das grandes estrelas da moda; a direção criativa é o grande futuro da moda”. É importante pensarmos sobre essa nomenclatura, pois ela é reflexo direto de uma nova compreensão das multiplicidades do campo. Para a primeira adjetivação, a de “diretor criativo”, compreende-se toda a configuração de uma nova realidade que contempla, além da noção de estilismo, a ideia de o profissional estar pronto para as adversidades e exigências que a carreira exige. Alguém com formação completa em direções conceituais de estilo, de imagem, de produção, dentre outras.

 Já a definição de “diretor de estilo” contempla, hegemonicamente, o profissional que concebe propostas conceituais de estilos de moda. O importante aqui é entendermos que a nova realidade da moda centra-se na questão da criação e como todos a interpretarão. De maneira que o passaporte para o sucesso no mercado que anda saturado de profissionais sem formação forte é o que costumo afirmar como olhar além das fronteiras da obviedade. É preciso enxergar onde não se vê e perceber que as novas sensibilidades demandam estratégias que devem ser, simultaneamente, criativa e mercadológica. Afinal de contas, moda deve ser sempre um exercício estético para a humanidade que a consome simbólica e mercadologicamente.

 Tarcisio D´Almeida é professor e pesquisador do curso Design de Moda da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal de Minas Gerais (EBA-UFMG). tarcisiodalmeida@eba.ufmg.br
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