Sobre moda, figurino e fantasia

Passou-se o carnaval. Por isso, pensei em tratar das relações entre moda, figurino e fantasia. Vestir-se implica usar uma criação, quer seja de uma grife de moda, de um figurino (para teatro, cinema, TV), ou de uma fantasia (para carnaval ou festa, por exemplo). Três campos quase homogêneos, mas com sutis distinções, que compartilham de dois conceitos essenciais que os caracterizam: o tentar “ser conceitual” e a “(re)interpretação de temas”. Por isso, fazem-se necessárias, inicialmente, as definições sobre o que constitui cada um deles.

A moda registra, desde suas origens remotas com o Renascimento, a essência do consumo de seus bens produzidos. Seja na esfera simbólico-estética, seja na econômico-financeira da criatividade, que adquire caráter mercadológico, as criações da alta-costura e do prêt-à-porter não existem sem uma equação que balanceie liberdade do ato criativo dos estilistas e o que será adotado pelas sociedades em seus tempos históricos. Contudo, há uma premissa que antecede essa dinâmica: a busca constante pela essência autoral na criação, o que garante o passaporte de criativa ao universo fashion.

A existência do mundo da moda é justificada por inúmeros fatores de ordens e campos diversos que se interagem no esforço conjunto para compreenderem a sua importância e seu consequente impacto nas sociedades. Moderna por excelência, a moda responde por uma gama de possibilidades que articulam estilos, tanto na esfera individual, em um primeiro estágio, quanto coletiva, em busca da inserção nas tribos s

Christian Lacroix e John Galliano

ociais. O vale-tudo pela satisfação a partir da roupa é seguido, historicamente, como uma das ferramentas que justifica a existência consubstanciada de um mercado voltado para a complexidade que é a moda.

Já o processo criativo do figurino começa com uma análise detalhada da composição de determinado estilo visual, período e cultura social em que a produção (teatro, cinema, TV) irá ocorrer, seja esse período histórico ou não. O roteiro da produção igualmente esclarecerá o lugar, o tempo e as estações nas quais os esboços dos desenhos começam a ser traçados para, em seguida, ganharem vida como peças do figurino.

Dependendo da produção, uma variedade de processos e de fontes diferentes de pesquisa pode ser usada para ordenar a sequência lógica de exibição do figurino, não somente as roupas, como também os acessórios e o mobiliário cenográfico. A pesquisa detalhada é essencial, pois resulta num retrato que busca a fidelidade das criações da sociedade e da cultura da época pesquisada.

E, quando pensamos na fantasia e na sua relação com a sociedade, precisamos lembrar que a nossa compreensão aqui para a palavra “fantasia” é no sentido de se vestir, criando uma atmosfera contemplativa, de comemoração, geralmente atrelada às festas populares, como o Carnaval, ou, mesmo, às festas particulares ou em grupos. Uma fantasia é, geralmente, a tradução de uma imagem, de um sonho idealizado e materializado em roupas que escondem a real personalidade e constroem uma outra.

Temos alguns exemplos que contextualizam as contaminações das três áreas. John Galliano (para Dior), Christian Lacroix e Gareth Pugh são estilistas que criaram na moda com pesquisas e ressignificações históricas. Ronaldo Fraga, Lino Villaventura e Jean Paul Gaultier são exemplos de criadores que já desenvolveram figurinos para peças de teatro, cinema e companhias de danças.

Jean Paul Gaultier, Lino Villaventura e Ronaldo Fraga

Tarcísio D’Almeida é professor e pesquisador do curso Design de Moda da Escola de Belas Artes, da Universidade Federal de Minas Gerais (EBA-UFMG). tarcisiodalmeida@eba.ufmg.br
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